
A recuperação da atividade econômica em 2020 foi muito rápida em termos históricos, mas não atingiu todos os setores, com os serviços muito atrás da indústria e do comércio. Essa heterogeneidade, somada a uma desaceleração, deve continuar ao menos no primeiro semestre deste ano, num cenário em que os consumidores andam muito insatisfeitos e preocupados com a pandemia e o desemprego. A avaliação é de uma equipe de economistas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).
Aloisio Campelo, superintendente de Estatísticas Públicas do Ibre/FGV, aponta que nos sete meses posteriores ao choque inicial da pandemia, de maio a novembro de 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) recuperou 87% das perdas de março-abril. O cálculo foi feito com base no Monitor do PIB, calculado pelo instituto.
Na mediana de nove recessões anteriores a 2020 (entre 1980 e 2016), datadas pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), do Ibre/FGV, a recuperação em um período de sete meses após o choque no PIB, foi de apenas 48%. “Cada recessão tem uma característica, uma dispersão, mas não é comum recuperação tão rápida como a do ano passado”, afirma Campelo.
Pela ótica da oferta, a indústria mais que recuperou as perdas ao crescer 108% em sete meses, contra apenas 33% da mediana das nove recessões. Os serviços, com 84%, não voltaram aos níveis pré-pandemia. Um desempenho muito inferior à mediana, de 121%.
O setor de serviços costuma perder muito pouco em recessões, mas por causa da natureza inédita da crise de 2020, com prejuízo à circulação de pessoas, essa parte da economia foi, e continua a ser, a mais afetada.
Sob a ótica da demanda, o consumo das famílias resgatou 80% das perdas, contra apenas 69% na mediana das recessões anteriores. Mas, enquanto o consumo de bens duráveis voltou a ficar acima do nível pré-pandemia (115%) e os bens não duráveis quase chegaram lá (98%), o consumo de serviços das famílias recuperou apenas 44%.
“Essa retomada heterogênea preocupa. Em janeiro, a indústria esfriou um pouco, mas continuou bem. Mas os serviços, o setor que mais emprega, continuaram mal”, observa Campelo. No subgrupo “outros serviços”, que concentra os serviços às famílias, como alojamento, alimentação e cabeleireiro, a retomada foi de apenas 58%.
Em janeiro, as sondagens realizadas pelo Ibre sinalizaram desaceleração em todos os setores e na confiança do consumidor. Todos, diz Campelo, têm perdas importantes nos subíndices de situação atual - mais relacionado à atividade de fato - e de expectativas. E segue a distância muito grande entre os indicadores de confiança da indústria e de serviços, que está em 28,7 pontos, para a média de 10.
“Há sinais de arrefecimento na indústria, mas o movimento foi acompanhado por uma piora também nos serviços, de forma que o desequilíbrio setorial na retomada não diminuiu”, afirma Luiz Guilherme Schymura, diretor do Ibre/FGV.
As diferenças também são notáveis nas perspectivas de emprego. Enquanto na indústria o saldo da proporção de empresas prevendo aumento de pessoal nos próximos três meses foi de 17,8% em janeiro, nos serviços foi de apenas 1,2%, um ímpeto de contratação ainda muito fraco. Segundo dados da Pnad Contínua, a população ocupada nos serviços prestados às famílias caiu 23,7% em novembro, na comparação com novembro de 2019, uma multidão de 4 milhões de pessoas. Esse segmento representa 18% da população ocupada da economia, mas foi responsável por 46% das demissões.
O brasileiro sentiu o baque da fragilidade da economia, do desemprego, do aumento recente da inflação e do fim do auxílio emergencial, e sua confiança também embicou para baixo. O nível da confiança medida pelo Ibre em janeiro, 75,8 pontos, está bem abaixo do das empresas. “A confiança do consumidor é outro motivo de preocupação”, diz Campelo.
Esse consumidor mais cauteloso pode levar a indústria, o setor com melhor desempenho até agora, a taxas de crescimento menores. O setor pode continuar bem até fevereiro, mas há dúvida sobra a demanda. “A desaceleração da economia vai afetar a indústria. O setor vai continuar com desempenho superior aos serviços, mas vai esfriar nos próximos meses.”
Enquanto isso, o brasileiro quer continuar poupando. Ele segue guardando dinheiro por precaução, diz Viviane Seda Bittencourt, coordenadora das sondagens do Ibre/FGV. “Não projetamos uma volta rápida do consumo nem de bens nem de serviços.” As sondagens dos últimos meses mostravam que as faixas de renda familiar até R$ 4.800 mensais tinham intenção de usar a poupança em gastos correntes, afirma Viviane, o que pode ter levado à retirada recorde dos recursos da poupança em janeiro. A faixa de mais alta renda diz que só vai usar seus recursos a partir do segundo semestre.
Uma melhora no mercado de trabalho poderia alterar o humor do brasileiro, o que só deve ocorrer com o avanço da vacinação, diz Rodolpho Tobler, economista do Ibre/FGV. O maior entrave são os segmentos de serviços que mais precisam de interação: alojamento, alimentação e serviços domésticos. Juntos, eles perderam cerca de 3 milhões de empregos na pandemia. “A questão é saber em que momento isso vai acontecer. Provavelmente quando a vacinação estiver mostrando efeitos claros de redução de casos e mortes.”
Se a desaceleração dos indicadores aponta para a probabilidade de um PIB negativo no primeiro trimestre, o segundo quarto do ano deve ver números melhores à medida que a vacinação avançar, diz Claudio Considera, pesquisador associado do Ibre/FGV. Ele diz que considerava otimista a projeção do Ibre, de crescimento do PIB de 3,5% em 2021, mas agora o número parece adequado diante as perspectivas de imunização. Por outro lado, vê como fundamental manter o auxílio para ajudar a impulsionar a atividade. Em toda recuperação, lembra, o emprego demora a voltar.
Schymura chama atenção para o papel da questão fiscal na retomada. “É importantíssimo criar uma coordenação que faça uma transição que seja aceita dentro do embate distributivo dentro da sociedade.” Ele ressalta que se projetava uma dívida bruta de 95% do PIB em 2020, mas a relação atingiu 89,3%. Em outras palavras, seria possível elevar o endividamento, desde que se montasse uma trajetória de equacionamento da dívida. “O problema da dívida não é de estoque, mas de fluxo. Temos que equacionar isso.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Ana Conceição — De São Paulo, 08/02/2021

