Diante de um cenário político menos turbulento, o Ibovespa encontrou espaço para garantir sua terceira alta consecutiva. O índice chegou a superar a marca de 120 mil pontos durante o pregão, impulsionado também pelo noticiário corporativo, que teve como destaque o possível acordo da Vale com o governo de Minas Gerais em relação à tragédia de Brumadinho. O ganho na bolsa só não foi maior por causa da persistente cautela com o rumo das contas públicas, o que evita voos mais altos.

Ontem, o Ibovespa fechou em alta de 1,26%, aos 119.725 pontos, depois de tocar a marca de 120.210 pontos na máxima do dia. O giro financeiro foi de R$ 23,7 bilhões, ligeiramente abaixo da média de R$ 25,7 bilhões em 2021. Na semana, o índice ganha 4,05% e, assim, volta ao terreno positivo no acumulado do ano, com alta de 0,59%

O que tem respaldado a sequência de ganhos da bolsa é a sinalização de um alinhamento mais harmonioso entre os poderes Executivo e Legislativo, após a eleição de candidatos governistas para a presidência das duas casas do Congresso. Além disso, o Planalto já apresentou uma lista de prioridades para a agenda legislativa, com matérias importantes como o Orçamento. No entanto, ainda prevalece certa desconfiança sobre a trajetória da dívida pública e o risco de aumento de impostos. Tanto é que o índice não conseguiu manter o patamar de 120 mil pontos até o fim do dia.

Para o analista Enrico Cozzolino, da Daycoval Investimentos, a desaceleração no mercado veio depois de o índice testar o ponto de resistência em 19.500 pontos. A questão técnica se soma ainda a alguma cautela na política, dada a animosidade de oposição e governo no Congresso, o que instiga uma correção no índice.

Dentre os setores que se mostram bastante sensíveis a esse tipo de discussão está o de bancos. Durante a tarde, as ações de Itaú Unibanco, Bradesco e Santander chegaram a virar para o negativo, depois de altas firmes mais cedo. No fechamento, Bradesco PN ganhou 0,48% e Itaú ON registrou queda de 0,49%. Já as units de Santander Brasil caíram 0,39%, mesmo depois de o balanço do quarto trimestre agradar analistas.

Um dos grandes destaques positivos na bolsa ficou por conta do salto das ações da Vale, após a empresa anunciar que está perto de um acordo com o governo de Minas Gerais sobre indenizações referentes à tragédia em Brumadinho. A ação ordinária da mineradora, que já vinha subindo com o avanço do minério de ferro na China, ganhou força adicional e fechou em alta de 3,16%, a R$ 90,43, com o maior giro do mercado à vista.

Durante a tarde, a Vale confirmou que pode assinar um acordo final com as autoridades estaduais e federal a respeito da compensação pelo desastre da barragem de Brumadinho. Ao Valor, fontes familiarizadas com as negociações disseram que o valor oferecido pela Vale foi elevado para R$ 37 bilhões.

O acordo está no radar dos analistas e investidores há algum tempo. Em relatório divulgado nesta semana, o Credit Suisse aponta que a Vale iniciou a disputa com a oferta de R$ 29 bilhões. Isso significa que, se o acordo for fechado mais perto de R$ 40 bilhões, a empresa provavelmente terá provisões adicionais.

“No entanto, como a Vale negocia a cerca de 2 vezes EV/Ebitda contra o que percebemos ser um intervalo justo de cerca de 4 vezes a 4,5 vezes, acreditamos que mesmo que um acordo implique uma provisão adicional de mais de R$ 10 bilhões ainda seria acréscimo para a Vale e encerraria o que poderia ser uma disputa de vários anos nos tribunais”, diz casa, ao destacar que isso eliminaria uma pendência importante para a companhia.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Lucas Hirata — De São Paulo, 04/02/2021