"O prefeito vai ser um pidão durante todo o seu mandato. Tenho pedido automóveis, motocicletas, roupas...". Reunido por três horas e meia com lideranças do setor da construção civil, o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), adicionou ontem um item na lista de doações solicitadas a empresários: a reforma de 83 albergues e a construção de unidades. Depois de participar de uma palestra, seguida por almoço, em evento semelhante aos que organizava no grupo empresarial
Lide, Doria anunciou o apoio de 52 empresas para pagar os custos das obras dos abrigos.
A reforma da primeira unidade, o Complexo Prates, na região da Cracolândia, custará R$ 20 milhões. "É assim que vamos fazer, pedir ajuda para quem pode ajudar e sem nenhuma contrapartida." Há um mês no cargo, o prefeito de São Paulo tem usado sua boa relação com o empresariado, construída no Lide grupo por ele fundado , para conseguir doações nas mais diferentes áreas.
Da decoração de seu gabinete até a reforma de banheiros do Parque Ibirapuera, manutenção de praças e instalação de banheiros públicos, segurança em vias da cidade e limpeza da ponte Estaiada, o discurso de Doria é o mesmo: obras, serviços e equipamentos recebidos pela prefeitura são frutos de parcerias sem contrapartidas do setor privado. No leque de empresas e empresários que têm ajudado o tucano estão filiados ao Lide, doadores de campanha eleitoral e até uma construtora que trava um embate com a prefeitura.
Doria tem procurado pessoalmente donos de empresas e sindicatos para pedir doações. Ontem, o prefeito disse ter ido ao evento promovido pelo Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon) "com objetivo determinado": conseguir recursos para os albergues. "O recurso nem passa pela prefeitura, vai direto para a operacionalidade da obra", afirmou. A primeira obra, no Complexo Prates, começará neste mês.
O presidente do Sinduscon, José Romeu Ferraz Neto, disse ter decidido custear obras dos abrigos, sem contrapartidas, porque "gostou do projeto". "Foi a primeira vez que apresentaram um projeto com começo, meio e fim", disse, em tom de crítica a propostas apresentadas por governos anteriores. "É o dinheiro mais bem empregado neste ano." Doria nega que as sinalizações feitas por empresários da construção civil, setor que tradicionalmente bancava campanhas eleitorais, serão
recompensadas pela prefeitura, em licitações ou contratos. "É totalmente voluntário, não há nenhuma contrapartida nem nenhuma expectativa de contrapartida", disse.
O próprio prefeito encarregase de fazer a propaganda dessas doações. Ontem, contou ter ligado para o dono da Riachuelo, Flavio Rocha, que estava em Milão, para pedir doações de roupas para pessoas em situação de rua. "Conseguimos 40 mil mudas de roupas novas. Não é roupa velha, nem usada, nem estragada da Riachuelo", disse Doria a jornalistas, sobre a parceria com a empresa de seu amigo. A Riachuelo, no entanto, disse que foram 20 mil peças e que "realiza esse tipo de doação com frequência, inclusive para outras cidades e Estados em que pessoas ficam desabrigadas em decorrência de tragédias."
A proximidade com os empresários está representada no gabinete de Doria, que foi pintado e redecorado por meio de doações e empréstimos, em sistema de comodato. Insatisfeito com as marcas de dedo na parede e com a sujeira no carpete, o tucano conseguiu litros de tinta da marca Coral e um novo carpete da Casa Fortaleza. O ambiente ganhou móveis da Breton e da marca suíça Vitra, como dois aparadores, com o custo estimado de R$ 100 mil cada.
O programa "Marginal Segura", que aumentou os limites de velocidade nas marginais dos rios Tietê e Pinheiros, foi reforçado por doações no valor de cerca de R$ 2 milhões do setor automotivo. A Mitsubishi deu 10 picapes L200, 4X4 no valor de R$ 1,6 milhão, sem contrapartidas. A Honda doou 20 motos XRE 300 C que, segundo a tabela Fipe, custariam aos cofres públicos R$ 334,9 mil se a prefeitura fosse comprálas. Na mesma linha, a Yamaha deu seis motocicletas XTZ 250 Ténere, no valor de R$ 97,5 mil, segundo a tabela Fipe. As picapes e motocicletas serão usadas para a segurança das vias.
Filiada ao Lide, a Honda afirmou que a participação no grupo não teve "qualquer influência". O diretor de Relações Institucionais, Paulo Takeuchi, disse por email que o prefeito procurou diretamente a Honda e que a empresa fez a doação para melhorar a segurança. "Não há contrapartida.
Entendemos que o convite da prefeitura vai ao encontro da nossa missão de contribuir para um trânsito mais seguro e, nesse sentido, decidimos participar", disse. A empresa afirmou ainda que no ano passado doou dez motocicletas para a Prefeitura de Manaus. Doria pediu a empresários para pagar a limpeza e a nova iluminação da ponte Estaiada, que custou R$ 900 mil, para "resgatar a autoestima" da população. Participaram Philips Lighting, que integra o Lide, Jofege Pavimentação e Construção, e a APV Wienand Organização de Eventos.
A Philips Lighting disse que "a doação [de 114 projetores de LED] está alinhada ao histórico da Philips, que em 2008, por meio de licitação, participou do primeiro projeto de iluminação da ponte." O prefeito também entrou em contato com o setor privado para reformar e conservar banheiros do parque Ibirapuera. A Cyrela será responsável pela reforma de 16 banheiros, incluindo a troca de todas as louças, metais e azulejos. A empresa não informou o custo da obra. A Unilever cuidará da limpeza e também não informou quanto deverá gastar. As duas empresas são filiadas ao Lide. Doria tem relação antiga de amizade com o fundador da Cyrela, Elie Horn, que doou para sua campanha R$ 100 mil.
O empresário, no entanto, foi eclético em suas doações em 2016 e contemplou com o mesmo valor as campanhas de Fernando Haddad (PT), Marta Suplicy (PMDB), Celso Russomanno (PRB). A empresa fez no ano passado uma exposição para homenagear a esposa do prefeito, Bia Doria, artista plástica.
A Cyrela é alvo de uma disputa com a prefeitura em torno do Parque Augusta. A construtora e a Setin são responsáveis pela área do parque e as duas empresas travam um embate pela área com a promotoria e a prefeitura. As empresas querem construir um empreendimento imobiliário no local.
O exprefeito Haddad tentou negociar a compra do terreno, mas não conseguiu um acordo sobre o valor. O diretor corporativo da Cyrela, Claudio Carvalho, afirmou, por email, que a empresa está aberta a "iniciativas que tenham como propósito valorizar e revitalizar a cidade, com o intuito de atrair investimento, turismo e atividades para a cidade." Sobre o Parque Augusta, Carvalho disse que o "projeto tramita, desde a gestão anterior, nos diversos órgãos responsáveis e independentemente de qualquer parceria realizada com a prefeitura para outros projetos".
A Unilever, que cuidará da conservação dos banheiros do Ibirapuera, comprometeuse a doar 1 mil kits de higiene para pessoas em situação de rua, em albergues. Serão 65 mil escovas de dentes, 96 mil desodorantes, 160 mil tubos de pasta de dente, 600 mil sabonetes e 800 xampus. Em nota, a
empresa disse que "quer contribuir para uma cidade melhor". "As parcerias com a prefeitura são uma forma de prestar um serviço para a sociedade."
Doria usou também sua proximidade com empresários para firmar parcerias, estas sim pagas, com hospital particulares, para diminuir as filas para exames e consultas. Hospitais como HCor, SírioLibanês e Albert Einstein, também filiados ao Lide, vão cobrar a tabela SUS para atender a população no "Corujão da Saúde".
"Não há nenhum mal em se pedir para o bem e não há nenhum mal para aqueles que estão doando. Ao contrário. Temos que elogiar e referendar as empresas, pessoas que estão ajudando e cooperando com a cidade. Vou fazer isso todo dia", afirmou o prefeito.
Fonte: Valor - Politica, por Cristiane Agostine, 01/02/2017

