Alteração nos limites de faturamento para efeito de enquadramento, condições mais vantajosas de financiamento em linhas como Finame e o Cartão BNDES, liberação de capital de giro sem a intermediação de agentes financeiros, busca por maior agilidade na aprovação do crédito. As novas políticas operacionais do BNDES, anunciadas em janeiro, revisaram as condições de financiamento e elegeram o segmento PME como uma das prioridades. A expectativa é de um aumento de 20% nos
desembolsos para as firmas de menor porte este ano.
O anúncio é um alento para um segmento que viu os desembolsos despencarem nos dois últimos anos. Conforme dados do BNDES, após atingirem R$ 59,37 bilhões em 2014, os recursos destinados às empresas de micro, pequeno e médio portes recuaram 37,09% no ano seguinte, para R$ 37,35 bilhões. Em 2016, até novembro, novo tombo: 34,75%, para R$ 24,37 bilhões, na comparação com igual período de 2015. O número de operações aprovadas ao segmento baixou 51,07% entre 2014 e 2016.
Recessão econômica, endividamento elevado que freou a busca por crédito, mudança nas regras do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) criado em 2009 para financiar máquinas e equipamentos e projetos de investimento engavetados em um cenário de incertezas explicam a redução drástica na demanda e na concessão de dinheiro no biênio. Um cenário que, com as regras mais favoráveis e a perspectiva de retomada da economia em 2017, o BNDES espera reverter.
"As medidas deixam clara a estratégia do banco de agilizar e simplificar o acesso do crédito a esse porte de empresa, visando a retomada do crescimento e o amplo acesso a novas empresas que nunca tomaram crédito conosco", diz Carlos Vianna, chefe da área de operações indiretas do BNDES. Em uma das principais alterações, o banco buscou alinhamento com o conceito de porte instituído pela Lei Geral da Micro e Pequena Empresa para o enquadramento dessas firmas. Assim, passa a reconhecer a microempresa como a firma com faturamento bruto anual de até R$ 360 mil e a pequena como aquela que fatura até R$ 3,6 milhões/ano. A empresa de médio porte é, agora, aquela que fatura até R$ 300 milhões/ano o teto era R$ 90 milhões.
Na prática, as empresas com faturamento entre R$ 90 milhões e R$ 300 milhões que tomaram recursos com o BNDES no último ano encontrarão agora condições mais vantajosas e adequadas ao seu porte. "A expectativa é que 1,5 mil empresas nesse cenário tenham acesso a recursos em 2017. Parece pouco, mas é um segmento com potencial enorme para desarquivar projetos e planos de expansão", diz Vianna.
Para o presidente do Sebrae Nacional, Guilherme Afif Domingos, a dúvida é quanto da fatia dos recursos do BNDES será efetivamente canalizado para o segmento de micro e pequenas empresas. "O aumento de R$ 90 milhões para R$ 300 milhões visa incluir o atendimento diferenciado às médias
empresas", observa. Os produtos acessados pelo segmento PME foram remodelados. Caso do Cartão BNDES, cujo limite de crédito foi ampliado de R$ 1 milhão para R$ 2 milhões. No caso do Finame, voltado para financiar máquinas e equipamentos, o prazo de amortização aumentou dos atuais 60 meses para até 120 meses. Os empréstimos poderão ser financiados com participação máxima de 80% em TJLP em 2017.
Os prazos maiores são suficientes para estimular a tomada de crédito? "Se o empreendedor tiver um bom projeto, será estimulado a levantar recursos. Com estímulos apenas nos juros, um dos efeitos é a realização de projetos ruins, que só valem porque o empreendedor tem custo baixo", diz Roberto
Castello Branco, diretor da FGV Crescimento e Desenvolvimento. O BNDES também ampliou sua linha de capital de giro, o Progeren, até então disponível apenas na modalidade indireta. Agora, o Progeren poderá ser contratado diretamente com o BNDES, sem a intermediação de agentes financeiros, reduzindo custos de captação. Foram disponibilizados R$ 5 bilhões em capital de giro de forma direta em 2017, com mínimo de financiamento de R$ 10 milhões por operação.
Para as empresas com receita anual de até R$ 90 milhões, o prazo de pagamento é de até 60 meses, com carência de até 24 meses e encargos a partir de 2,1% ao ano + 100% TJLP. A liberação de "giro" de forma direta faz parte de uma estratégia mais ampla do BNDES de se aproximar dos pequenos tomadores. O desenvolvimento de soluções tecnológicas que serão plugadas aos sistemas dos principais bancos parceiros agora em teste permitirão que os empreendedores façam suas
demandas por crédito de forma automatizada.
Em um portal de relacionamento, que deve funcionar a partir de junho, o empreendedor poderá se comunicar diretamente com o BNDES, que préavaliará as melhores soluções de crédito e o endereçará aos agentes financeiros. "A ideia é conhecer melhor essa demanda, que hoje não é bem precificada", diz Vianna. O BNDES prevê que até 2018 o tempo de análise e concessão de crédito caia de 30 para dois dias.
Fonte: Valor - Finanças, por Felipe Datt, 30/01/2017

