Utilizado durante décadas como principal referência na avaliação da rentabilidade de investimentos, o percentual do CDI (Certificado de Depósito Interbancário) tem, ainda hoje, um lugar cativo no imaginário popular de boa parte dos investidores, que seguem tomando-o como base na hora de aferir se uma determinada aplicação é ou não digna de receber suas economias.
O leitor provavelmente já se deparou, em seu banco, com anúncios do tipo “CDB a 100% do CDI”, “110% do CDI” ou até mais, chegando, em alguns casos a 180% do CDI. Pode até parecer muito, mas, na ponta do lápis (e com matemática financeira simples), essa ideia intuitiva não se sustenta.
Vamos aos números. Um investidor que tenha aplicado seu dinheiro, por exemplo, em um CDB com uma rentabilidade de entre 105% e 110% do CDI obteve, no ano passado, um retorno líquido (descontando o Imposto de Renda em um ano) de 2,3%. Com um IPCA girando acima de 4% no período (até dezembro, último dado do IBGE, era de 4,52% no acumulado do ano), o resultado é um rendimento negativo de aproximadamente 2,2%. Para um produto que tenha pago 120% do CDI em 2020, o rendimento real foi de -1,4%. E para os “incríveis” 180% do CDI, o investidor teria, feitas as contas, uma rentabilidade real também “incrível” (propositalmente entre aspas) de -0,2. Sim, na prática, seu patrimônio não evoluiu. Um resultado que boa parte dos investidores infelizmente não percebe.
É verdade que vivemos um longo período em um cenário de juros em patamares de dois dígitos, o que, por sua vez, incutiu na cabeça do aplicador médio essa ideia de que investimentos que batem o CDI são, por definição, um bom negócio. Para se ter uma ideia, segundo dados do Banco Central (Bacen), em 1999 os juros chegaram ao patamar de 45% ao ano (você leu direito: 45% ano). E até meados da década passada a Selic superava facilmente os 15% ao ano. Era uma festa para os rentistas e uma verdadeira tragédia para o setor produtivo e para o mercado de capitais, que em um mundo de ganhos sem riscos, simplesmente não tinham espaço para se desenvolver.
Mas a realidade é que esse cenário vem mudando. Vivemos, há quase três anos, na era dos juros de um dígito e há mais de um ano em um mundo com a Selic em patamares abaixo dos 5%. E não há, a princípio, qualquer indício de que esse cenário vá mudar. É possível e até esperado, diante de um cenário de inflação ainda um pouco elevada em 2021, que, em algum momento - provavelmente no segundo semestre -, o Banco Central inicie um movimento de alta dos juros. Mas essa será uma elevação que, nem de longe, dará margens a previsões de uma volta ao mundo dos dois dígitos com o qual, conforme acabei de mencionar, convivemos durante tanto tempo.
A pesquisa Focus, do Banco Central, que acompanha semanalmente as expectativas econômicas de mais de cem instituições do mercado financeiro, como bancos, gestores de recursos e outras (como consultorias e distribuidoras) indica, para 2023, uma Selic na marca de 6%. É um cenário “até onde a vista alcança”, o mais longo que a pesquisa permite antever e, como parece bem claro, está longe dos dois dígitos.
Os tempos da vida fácil das aplicações em renda fixa com alto retorno, baixo risco e alta liquidez, ficaram para traz. Por isso, mais importante do que pensar no rendimento como percentual do CDI é buscar, isso sim, ativos que ofereçam ganho real. A bolsa, com seus mais de 3,2 milhões de pessoas físicas (ante pouco mais de 600 mil em 2010) e o cada vez mais desenvolvido mercado de fundos imobiliários (com mais de R$ 155 bilhões em recursos administrados) são uma prova dessa nova realidade e do apetite pela renda variável e pelo retorno nominal mais elevado.
Para aqueles investidores que ainda estão presos a essa armadilha do percentual do CDI, sempre há tempo para mudanças de rumo. E as lições para isso são simples. Em primeiro lugar, vale a lei mais elementar e conhecida do mercado financeiro: diversificar, de acordo com as classes de ativos e separando apenas o necessário para garantir a reserva de liquidez - ainda assim, buscando apenas em último caso a rentabilidade como percentual do CDI. A segunda dica é ter em mente seu horizonte de aplicação: tenha clareza e aprenda a ter algum estômago para encarar o fato de que oscilações são normais no dia a dia quando se busca um objetivo maior. Aprenda a ver seu patrimônio oscilar no curto prazo para obter rentabilidade maior no médio e longo prazo. Por fim, invista fora dos grandes bancos. Como eu também costumo dizer, eles não têm a especialização e o foco em investimentos que o atual cenário de juro baixo exige.
É hora de buscar novas formas de avaliar a qualidade dos seus investimentos, como retornos acima do IPCA, que mostra se o crescimento do seu patrimônio efetivamente gerou mais poder de compra, ou índices diferentes para cada classe em que você investe, como o Ibovespa, IHFA, criado pela Anbima para acompanhar multimercados de gestão ativa, entre outros. Finalmente estamos, pelo menos no mercado de investimentos, criando a cultura de um país desenvolvido que busca retorno em ativos reais. Mas é fato que o CDI ainda é capaz de “enganar” a visão de boa parte dos investidores sobre a real rentabilidade dos seus investimentos. A hora é de pensar diferente.
Gabriel Leal é sócio e diretor executivo da XP Inc.
E-mail: gabriel.leal@xpi.com.br
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Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Gabriel Leal, 29/01/2021

