O inevitável impacto do aperto monetário e do esfriamento da economia começa a aparecer no mercado de crédito imobiliário. Depois de crescer 46% em 2021, a modalidade deve avançar apenas 2% neste ano, segundo projeção da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).
José Ramos Rocha Neto, novo presidente da associação, afirmou que são “unânimes” as projeções de desaceleração econômica neste ano em relação a 2021. “Em um momento de desconforto, a decisão de compra do consumidor se retrai”, disse a jornalistas.
A Abecip prevê R$ 260 bilhões em concessões de financiamento imobiliário neste ano, ante R$ 255 bilhões em 2021. Desse total, a expectativa é que R$ 195 bilhões venham das linhas que utilizam o funding da poupança (SBPE), o que corresponderia a uma queda anual de 5%. Outros R$ 64 bilhões podem vir de operações com funding do FGTS (usado para programas habitacionais), o que representaria um aumento de 30%.
Essa estimativa para os crédito com recursos FGTS se baseia no valor orçado pelo Conselho Curador do fundo para 2022. Só que, no ano passado, o valor desembolsado (R$ 49 bilhões) foi substancialmente inferior ao que estava previsto no orçamento (R$ 56,5 bilhões). Caso isso se repita, o crescimento da linha ficará aquém dos 30% indicados.
O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, disse ao Valor não prever um crescimento tão forte do crédito com recursos do fundo. O banco estatal concede quase a totalidade do crédito que utiliza essa fonte. Porém, ele está mais otimista em relação ao crédito via SBPE e afirmou que não vê sinais de desaceleração.
Segundo Guimarães, no total, a Caixa prevê conceder R$ 150 bilhões em financiamento imobiliário neste ano - acima, portanto, dos R$ 140 bilhões desembolsados ao longo de 2021.
Dos R$ 255 bilhões que foram concedidos no ano passado pelo setor, R$ 205 bilhões vieram do SBPE e R$ 49 bilhões, do FGTS, conforme os dados da Abecip. Em termos de unidades, as concessões somaram 1,233 milhão de imóveis financiados, o que representa um acréscimo de 49% sobre 2020. Ao mesmo tempo, os distratos (rescisão de contratos) no Brasil recuaram 3% de janeiro a outubro de 2021 na comparação anual, chegando a 14.482.
Rocha destacou que houve robustez de crescimento no financiamento imobiliário pelo SBPE em todas as regiões do Brasil. No Sudeste e no Nordeste houve avanço de 65% (R$ 123,4 bilhões e R$ 19,1 bilhões respectivamente), no Norte foi de 66% (R$ 5,3 bilhões), no Centro-Oeste de 63% (R$ 21,5 bilhões) e no Sul o incremento foi o mais forte, alcançando 71% (R$ 36,2 bilhões). O saldo da poupança, por sua vez, diminuiu 1,4% para R$ 790 bilhões.
Apesar da desaceleração do setor esperada para este ano com o represamento das compras de imóveis, o presidente da Abecip disse não enxergar a possibilidade de haver escassez de unidades em 2023, quando a demanda deve voltar a se aquecer.
“As entregas que estão ocorrendo mitigam um pouco esse risco de em um aquecimento de demanda não ter a entrega de unidades. O mercado ainda tem uma margem de segurança nas taxas de ocupação. Na alta renda pode ser que isso seja sentido um pouco mais, mas na mediana não existe esse risco”, afirmou.
O executivo também espera estabilidade nos indicadores de inadimplência. A taxa de operações em atraso caiu de 1,6% em 2020 para 1,5% no ano passado. “Prevemos a manutenção da inadimplência em 2022, qualquer mudança será marginal”, disse.
A Abecip espera que o Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil tenha registrado um crescimento de 7,6% em 2021 e avance mais 2% em 2022.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Ricardo Bomfim e Talita Moreira — De São Paulo, 28/01/2022

