Com mais de 70 milhões de clientes espalhados pelo mundo, a italiana Enel escolheu São Paulo e, mais precisamente, o bairro da Vila Olímpia, na zona sul da cidade, para abrigar uma iniciativa pioneira na rede de distribuição de energia do país. Se for bem-sucedida, a experiência poderá ser replicada em outras operações da empresa pelo mundo. “Digitalização está no centro da nossa estratégia global. A ideia do projeto é ser um laboratório com soluções e dados que possam contribuir com o setor de distribuição do futuro”, diz o diretor de tecnologia de rede e inovação da Enel, Bruno Cecchetti.
Iniciado no ano passado, com investimentos de R$ 125 milhões e conclusão prevista para 2022, o projeto vai criar uma réplica tridimensional da rede elétrica da Vila Olímpia e instalar 4,9 mil sensores que coletarão, remotamente e em tempo real, dados sobre condições da rede. Os sensores auxiliarão a distribuidora na operação e também no processo de localização de defeitos. A tecnologia permitirá reconfiguração e isolamento do trecho afetado por um defeito de forma automática, reduzindo o número de clientes impactados.
Serão aplicadas cerca de 50 iniciativas de digitalização e inteligência artificial, inéditas na América do Sul, para gestão da rede de energia. Serão aterrados 15 km de fios. O projeto deverá receber também soluções de armazenamento de energia, um tema que deverá ganhar impulso este ano com a recente chamada pública sobre o assunto lançada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Não há estimativa de ganhos no projeto porque muitas das soluções são inéditas e envolvem tecnologias nascentes. Exemplo está no uso de inteligência artificial para observar as árvores que existem na Vila Olímpia. A ideia, com o uso de análise de imagens por computadores, é detectar anomalias e verificar o melhor momento de poda. “Isso pode permitir antecipar o crescimento da vegetação”, diz.
Muitas espécies de plantas não são nativas do Brasil e, com o passar dos anos, acabam tendo seu núcleo oco, o que cria riscos para as redes de fios de alta tensão. Hoje esse é um dos problemas que afetam a distribuidora.
Os sensores deverão conectar ainda informações de outras concessionárias. “Será criada uma base de dados com informações sobre rede subterrânea, iluminação pública, trânsito, e isso poderá ajudar a financiar o investimento nessa plataforma digital, que vai muito além do escopo do contrato de distribuição” diz Cecchetti.
A empresa reuniu 148 parceiros em evento para discutir o projeto e receber ideias. Uma delas é que sensores nas latas de lixo pudessem informar quando estão cheias e assim ajudar a estabelecer a melhor rota para a limpeza do bairro. “As concessionárias têm interesse em compartilhar dados porque eles podem contribuir para ganhos de produtividade.”
Até agora foram instalados 24 sensores, que permitem indicar em tempo real interrupções, condições de tensão, temperatura, além de equipamentos da gestão de baixa tensão.
Fonte: Valor-Suplementos, por Roberto Rockmann - Para o Valor, de São Paulo, 27/01/2020

