
As grandes empresas brasileiras estão numa posição mais favorável do que estavam no início da pandemia da covid-19 para enfrentar um novo período de retração.
A dívida bruta subiu, com o aumento das captações de recursos e a desvalorização cambial, mas as companhias conseguiram aumentar em mais de 40% o caixa e equivalentes de caixa, o que conteve o avanço da dívida líquida.
Com um cenário menos propenso para investimento, elas também usaram os recursos disponíveis para remunerar os acionistas.
Esse retrato faz parte de um estudo do Centro de Estudo de Mercado de Capitais (Cemec) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), ao qual o Valor teve acesso, que mostra a situação econômica e financeira das maiores empresas do país.
A pesquisa considera os resultados até o terceiro trimestre de 2020 de 454 companhias não financeiras de capital aberto e fechado, a maior parte delas (65%) de grande porte.
A dívida bruta cresceu quase 22% do fim de 2019 até o encerramento do terceiro trimestre, para R$ 1,41 trilhão em setembro. A maior parte desse aumento ocorreu em consequência da desvalorização cambial, mas também por causa do aumento da captação de recursos, diz Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec-Fipe. “As empresas aproveitaram as medidas emergenciais do Banco Central e se anteciparam para ter recursos guardados no caixa”, diz.
No terceiro trimestre, a disponibilidade mantida pelas empresas era o equivalente a 26,6% da receita líquida - relação não apenas superior à registrada em 2019, de 19,2%, como em todos os anos desde 2010. “Apesar de todo o impacto negativo da crise, elas continuaram acumulando caixa no decorrer dos trimestres, enquanto captavam mais recursos.”
O índice de alavancagem, medido pela relação entre a dívida líquida e o lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), aumentou nos primeiros nove meses do ano, passando de 1,94 vez em 2019 para 2,27 vezes no terceiro trimestre. Em contrapartida, houve queda do segundo para o terceiro trimestre e, como destaca Rocca, o cenário ainda está bem longe do da crise de 2015, quando o indicador atingiu 3 vezes. “Com o choque da pandemia, as empresas ficaram numa situação desfavorável, mas ainda melhor que no pico da recessão”, diz.
Em termos de rentabilidade, também houve piora ao longo dos três trimestres. A relação entre lucro líquido e receita passou de 6,3% ao fim de 2019 para 2,5% em setembro. “A queda foi influenciada pelo aumento das despesas financeiras líquidas, já que, do lado operacional, as companhias conseguiram manter os resultados no mesmo patamar”, diz Rocca.
O estudo mostra ainda que as companhias optaram por reter uma menor parcela dos ganhos no ano passado - um movimento notado desde 2019, após um pico no percentual do lucro guardado em relação ao PIB, mas acelerado no ano em que a covid-19 se espalhou pelo mundo. O motivo para isso, diz Rocca, é que não há ambiente para investimentos, considerando a elevada capacidade ociosa e o clima de incerteza.
Uma variável que também influencia nas decisões de investimento é a relação entre a taxa de retorno do capital investido e o custo médio de capital. Em cenários favoráveis, o retorno é maior, ou bem próximo, ao custo. No ano passado, o retorno ficou bem abaixo do custo e o distanciamento entre os dois indicadores só aumentou com o avanço da crise sanitária. Ao fim de 2019, o custo de capital médio era de 11,6%, enquanto a taxa de retorno era de 10,9%. No terceiro trimestre, a taxa de retorno caiu a 8,5% e o custo de capital chegou a 12,3%.
Sem a pretensão de investir, o destino do lucro obtido passou a ser os acionistas. Segundo os cálculos da Cemec, a relação entre proventos pagos e o lucro passou de 68,1% em 2019 para 121,5% no terceiro trimestre de 2020.
Para os resultados do quarto trimestre, a expectativa de Rocca é que eles mostrem a manutenção de algumas tendências positivas que apareceram no terceiro trimestre e que as disponibilidades sigam elevadas, ainda que com o aumento da dívida e a queda na rentabilidade. Para 2021, o cenário é mais incerto, com o recente aumento de casos da doença e à defasagem dos efeitos da vacinação.
Fonte: Valor Econômico - Empresas, por Rita Azevedo — De São Paulo, 26/01/2021

