Com a decepção no cenário de chuvas e as térmicas operando a plena capacidade, especialistas apontam que é cada vez maior a chance de um racionamento - e quanto mais o governo demorar para tomar a decisão, maior pode ser esse ajuste. O alerta foi dado pelo consultor Mario Veiga, presidente da PSR Energy em teleconferência organizada pelo banco HSBC com seus clientes institucionais na sexta-feira. Uma das consultorias mais respeitadas no setor de energia, a PSR já calcula um risco superior a 50% de racionamento neste ano - ou seja, é maior a chance de que ele ocorra do que o contrário.
Em conversa com o Valor, na última semana, Veiga afirmou que todos no governo estão dizendo "meias verdades" sobre o blecaute do último dia 19, que completa hoje uma semana. E contesta uma a uma as justificativas do governo. Diz que, ao afirmar que o sistema tinha potência suficiente, o diretor geral do Operador Nacional do Sistema (ONS), Hermes Chipp, não informou que uma parte estava no lugar errado. Ele contesta ainda a afirmação do ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, que garantiu que o sistema elétrico nacional tem energia. "Energia no setor significa que tem água. E só vamos ficar totalmente sem água lá por volta de agosto ou setembro, se não chover. O problema não é energia, é potência. Energia é a quantidade de água armazenada nos reservatórios. Potência é quanto se pode gerar quando abrem as comportas, é a força", diz Veiga.
Ele explica que o esvaziamento dos reservatórios custou 20 mil MW em potência total no sistema. "Não tem jeito. Deveria ser 90 gigawatts (GW) e estamos com 70 GW", diz. Veiga também contesta versão sobre o que levou à ordem de desligamento para as distribuidoras. Segundo o ONS, mesmo tendo "folga na geração", houve uma redução na frequência elétrica devido a "restrições na transferência de energia" das regiões Norte e Nordeste para o Sudeste, aliadas à elevação da demanda. Mario Veiga explica que a frequência caiu porque o sistema tinha pouca geração, e não o contrário. Já o ministro Eduardo Braga reforçou que o sistema é "robusto".
"O ONS alega que a demanda está alta, o que não é nenhuma novidade. O sistema é planejado para ter reserva suficiente. Estamos nessa situação porque o governo em 2014 decidiu apostar que choveria no início deste ano e que o verão seria ameno. Não foi feita nenhuma medida de racionalização de consumo, deixando os reservatórios chegarem ao pior nível da história", diz Veiga.
A frequência do sistema nacional precisa ser constante, de 60 hertz por segundo. Se a demanda aumenta, é preciso mais esforço [geração]. "A frequência do sistema precisa estar cravada em 60 ciclos. Se a demanda aumenta, a frequência cai. E para evitar isso é preciso aumentar a geração de energia. Isso tem que ser feito em frações de segundo, e funciona automaticamente. Significa que os geradores que vão aumentar produção precisam estar operando naquele momento. É por isso que se dá o nome dessa reserva, que são as turbinas das hidrelétricas que estão girando sem produzir energia, como reserva girante. São necessários uns 5% da demanda como reserva girante", explica Veiga.
Como a demanda brasileira é de 86 mil MW, seriam necessários mais 4.300 MW de reserva para o sistema funcionar com folga. Como a potência nominal das hidrelétricas é de 90 mil MW, isso não seria problema se os reservatórios não estivessem vazios, o que reduz a capacidade efetiva de geração para 70 mil MW. Com isso, são necessários 18 mil MW de térmicas, e as renováveis. Mas o momento não é bom, já que acabou a produção de cana e a produção das eólicas cai nessa época. "Então na melhor situação, já estou apertado. Basta acontecer uma coisa errada que fico sem reserva", diz Veiga.
Para ele, o governo "deu um pau na caderneta de poupança" do setor elétrico, que ficou frágil e vulnerável. O técnico explica que o sistema brasileiro foi planejado para resistir a três anos de seca e, portanto, a aumentos muito significativos da demanda. E foi duro ao afirmar que o governo fez uma aposta que não devia ao esperar por chuvas ao invés de ter adotado medidas de racionalização. "No momento em que decide esgotar reserva, depende da sorte. Não é que São Pedro seja malvado. Seria absurdo o sistema brasileiro ser desestabilizado por causa de um mês de calor", diz.
A PSR vem alertando sobre o esvaziamento dos reservatórios desde 2010, mas foi a partir de 2012 que as maiores discrepâncias começaram a aparecer. "Em 2012 tivemos uma hidrologia acima da média e terminamos o ano muito mal, com térmicas ligadas no fim do período chuvoso. Em 2013, a hidrologia foi favorável, as térmicas permaneceram ligadas e a demanda foi medíocre", diz.
E continua lembrando que em 2014 o problema foi que o ano já começou com reservatórios baixos e a hidrologia foi a nona pior da história. "Mesmo assim, o ONS secou a hidrovia Tietê, acabou com [o reservatório da hidrelétrica] Três Marias e, ao não fazer nada, deixou os reservatórios no pior nível", resume o consultor.
Mario Veiga avalia que o blecaute da semana passada evidencia erros de condução da política energética que levaram o sistema a um estado de fragilidade que nada tem a ver com as altas temperaturas atuais. "Estamos frágeis porque o governo decidiu não tomar medidas em 2014. A situação é igual ao do sistema Cantareira", diz. Em resumo, o blecaute aconteceu porque não há energia de reserva no Brasil que atenda picos de demanda.
Fonte: Valor Econômico por Cláudia Schüffner, Rodrigo Polito e Natalia Viri, 26/01/2015

