A posição cambial líquida do Banco Central (BC) caiu abaixo de US$ 290 bilhões pela primeira vez em quase cinco anos. Em 15 de janeiro, o indicador estava em US$ 286,7 bilhões, conforme divulgado pela autoridade monetária. A principal diferença do indicador em relação ao total de reservas internacionais é que a posição cambial líquida desconta das reservas o estoque de swaps, instrumento equivalente à venda futura da moeda americana. A posição cambial líquida é defendida pelo próprio presidente do BC, Roberto Campos Neto, e pelo diretor de política monetária da instituição, Bruno Serra Fernandes, como um termômetro mais preciso da situação das reservas.

Até este começo de ano, a última vez em que a posição cambial havia ficado abaixo de US$ 290 bilhões foi em março de 2016, quando estava em US$ 267,5 bilhões. O indicador terminou 2020, por sua vez, em US$ 299,5 bilhões. Entretanto, as mudanças na legislação do chamado “overhedge” levaram o BC a ampliar no fim do ano passado a sua atuação por meio de swaps. Com isso, o estoque do instrumento cambial cresceu de US$ 58,2 bilhões em dezembro para US$ 69,2 bilhões em janeiro.

Para economistas, apesar da queda recente, a posição cambial líquida segue em patamar confortável - a mesma avaliação sobre o total de reservas internacionais.

 

“Em um sistema de câmbio flutuante, a maior defesa é a própria flutuação do câmbio. As reservas estão ali para ser usadas em momentos mais pontuais, como a crise da covid”, diz Carlos Kawall, diretor do Asa Investments.

A perspectiva do Asa é que o fluxo cambial neste ano fique “neutro ou levemente positivo”, em função de fatores como: aumento do preço de commodities; menores incertezas nos EUA, passadas as eleições; manutenção de juros baixos no mundo; recuperação da economia chinesa; pipeline de privatizações e concessões no Brasil. Todos esses fatores devem ajudar a manter as reservas em situação confortável, de acordo com Kawall.

Ele alerta, no entanto, para os impactos negativos que o desequilíbrio das contas públicas e o cenário político podem ter sobre esse quadro. O economista também lembra que as mudanças na legislação do overhedge estabelecem que parte do desmonte das posições dos bancos seja realizada neste ano, o que também pode levar a novas intervenções do BC por meio de swaps.

Sergio Goldenstein, consultor da Ohmresearch Independent Insights e ex-chefe do departamento de mercado aberto do BC, calcula que a Selic terminará 2021 em 5% ao ano, o que também deve fortalecer o fluxo cambial. Ele destaca que o fluxo somado de 2019 e 2020 ficou negativo em US$ 72,7 bilhões. Já o real se desvalorizou aproxidamente 30% apenas no ano passado.

“Isso não é causado só pelo quadro fiscal, mas também pela Selic muito baixa”, diz, chamando a atenção para o fato de a taxa de juros real do Brasil estar mais negativa do que a da Suíça. “Vender moeda com taxa de juros muito abaixo do equilíbrio é enxugar gelo.”

Kawall e Goldenstein reiteram que a posição cambial líquida apenas é um dos indicadores que mostram a situação das contas externas. “É uma maneira mais usada pelo mercado para olhar as reservas, menos pelos economistas”, diz o diretor do Asa.

Mas alguns analistas preferem não observar esse indicador, como Bráulio Borges, economista-sênior da LCA Consultores.

“A posição cambial considera que o dólar físico é substituto perfeito do dólar swap cambial, mas não é”, afirma.

Procurado a respeito da queda da posição cambial líquida, o BC optou por não responder.


Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Estevão Taiar — De São Paulo, 22/01/2021