O Banco Central retirou a orientação de que não elevaria a taxa de juros enquanto não houvesse mudança para pior na instância fiscal e as expectativas de inflação não encostassem na meta. Negativos, os juros poderão subir porque a inflação se mostrou mais persistente do que esperava o BC e, o que é mais relevante, “as diversas medidas de inflação subjacente apresentam-se em níveis acima do intervalo compatível com o cumprimento da meta para a inflação”. Qual será o timing e a intensidade do ciclo de alta é uma aposta em aberto. A fragilidade da economia desaconselha altas intensas e rápidas.
Embora a política fiscal não tenha sofrido qualquer alteração, as chances de que isto ocorra estão aumentando, o que desequilibra o balanço de riscos da inflação. Mas a possibilidade de instituição de novo auxílio emergencial, discutida pelos dois candidatos apoiados pelo presidente Jair Bolsonaro para ocupar o comando da Câmara e do Senado - Arthur Lira (PP-AL) e Rodrigo Pacheco (DEM-MG) - difere de outras tentativas de furar o teto de gastos. Ela decorre de um ambiente de deterioração das perspectivas sanitárias e de crescimento, emprego e renda e estão sob o signo do provisório.
O Ministério da Economia não vê necessidade de novo auxílio e que o impulso de recuperação da economia normalizará a situação por si só. Agiu da mesma forma no início da pandemia, para em seguida deslanchar série enorme de estímulos fiscais e monetários. Para isso foram usados instrumentos que contornam o teto de gastos (orçamento de guerra e a decretação de calamidade pública), mas não o extingue.
É um desafio para o BC, para quem, segundo o comunicado, “prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia permanece acima da usual, sobretudo para o primeiro trimestre do ano”. Com a perda de fôlego da recuperação já no fim do ano passado e possibilidade de retração do PIB nos primeiros três meses do ano, reforçada pelo atraso na vacinação, elevar os juros logo pode se revelar uma decisão prematura. Esse é o principal alerta que soa entre as principais autoridades monetárias do mundo, o Fed americano e o Banco Central Europeu, assim como no staff do Fundo Monetário Internacional.
Analistas ligados ao mercado financeiro estimam que a Selic possa subir para 3% ou 4,5% até dezembro. Como a situação econômica é movediça, podem estar errados tanto agora como quando apostavam que a inflação de 2020 ficaria abaixo de 2% - mudaram de opinião em um par de meses. Simplesmente dobrar a taxa de juros com a economia em convalescência - a uma boa distância do nível medíocre de antes da pandemia - pode abortar a recuperação.
A alta de preços foi potencializada pelo comportamento do dólar, que passou a se valorizar mesmo com a mudança favorável ao Brasil nas relações de troca. A origem desse comportamento é controversa: isso se deve ao fato de os juros terem caído demais ou aos riscos fiscais muito altos? No primeiro caso, é difícil sustentar que juro ligeiramente maior auxiliaria a recuperação da economia ou inverteria muito a trajetória do câmbio - que não está na mira do Banco Central. No segundo caso, elevar os juros só pioraria o problema fiscal.
A pandemia destruiu oferta e demanda ao mesmo tempo. Um dos resultados é que o consumo foi deslocado para bens de baixa elasticidade de renda, caso típico dos alimentos, que puxam o IPCA para o alto enquanto a capacidade de produção não foi recomposta. A elevação das commodities, com um dólar valorizado, propagou a pressão de preços a outros setores. O BC tem o dever de agir para impedir os efeitos secundários destes choques e o alerta dos núcleos, que se desimcompatibilizaram com as metas, é um dos mais relevantes. Se, no entanto, como aposta o BC, as altas são temporárias, não há motivo para açodamento, ainda menos quando a economia se retrai. E, se necessário agir, o movimento tem de ser gradual, tentativo.
Pelas projeções do boletim Focus, o PIB crescerá 3,45% em 2021 e ainda estará quase um ponto percentual abaixo do de 2020. É certo que o BC está de olho em 2022, mas não há nenhuma aceleração do crescimento que justifique um aperto significativo, e sim o contrário - obstáculos à expansão, como o repique da covid-19 e o aumento do desemprego. O cenário externo benigno, ademais, permite ao BC ganhar tempo até que a realidade afaste parte das incertezas.
Fonte: Valor Econômico - Opinião, 22/01/2021

