O Banco Central (BC) derrubou a promessa de não subir os juros - o chamado “forward guidance” - e agora a questão imediata é quando poderá reapertar a política monetária. Pela projeções de inflação, isso deve ocorrer entre junho e agosto, levando a meta da taxa Selic para 3,25% ao fim do ano.
O comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do BC mandou uma mensagem mais ou menos direta de que os juros não vão ficar por tempo indefinido em 2% ao ano. Até dezembro, o comunicado dizia que, dadas as incertezas sobre a evolução da atividade, era preciso manter o estímulo monetário extraordinário. Agora, diz que “neste momento” é preciso manter o estímulo.
É o recado de quem vislumbra que, num horizonte não muito longe, vai ser preciso tirar um pedaço dos estímulos extraordinários. Se o Banco Central terminar o ano com juros de 3,25%, como é a aposta do mercado, os juros reais ainda vão estar próximos de zero. Continuarão estimulando a economia, considerando que a taxa neutra de juros é estimada pelo BC em cerca de 3% reais ao ano.
O cenário mais provável é uma alta de juros entre junho e agosto porque as projeções de inflação do Banco Central apontam uma inflação de 3,4% em 2022, ano que será o alvo principal da política monetária, se a taxa Selic evoluir conforme previsto pelo mercado.
O mercado prevê justamente um aperto entre junho e agosto. Para ser exato, o consenso da pesquisa Focus de expectativas de mercado do BC é que os juros estejam em 2,3% em agosto. Como os analistas preveem juros em intervalos de 0,25 ponto percentual, esse percentual de 2,3% é um sinal de que eles estão divididos entre um início de aperto no mês de junho ou no mês de agosto.
As projeções de inflação não são o único determinante de um eventual aperto monetário. Com a queda do “forward guidance”, o chamado balanço de riscos para a inflação volta a ter peso nas decisões. No comunicado, o Copom informa que o balanço de riscos para a inflação segue assimétrico para o lado negativo, em virtude dos riscos fiscais.
Uma evolução negativa do balanço de riscos levaria a um aperto mais prematuro dos juros. Há duas semanas, o diretor de política econômica do BC, Fabio Kanczuk, expressou preocupação com a evolução da política fiscal em um evento com investidores.
O curioso é que, apesar de o balanço de riscos pender para o lado negativo, o comunicado amarra a necessidade de manter um grau extraordinário de estímulos a um risco do lado baixista da inflação - a atividade.
Na sua descrição do cenário básico para a inflação, o Copom reconhece que os dados de atividade do fim do ano passado foram mais fortes do que o esperado. Mas ressalva que eles não contemplam o aumento de casos da covid - numa primeira referência feita à segunda onda. Também reitera que a incerteza permanece mais forte do que o usual com o fim do auxílio emergencial.
No cenário externo, o Copom reconhece um bom ambiente para os emergentes. Mas não chegou a abraçar a tese levantada na semana passada pelo diretor de política monetária do BC, Bruno Serra Fernandes, de que a alta dos preços das commodities poderia levar a um ciclo positivo ao Brasil.
O Copom não parece estar com o dedo no gatilho, como sugeriu declaração de Serra de que nada impedia que o aperto viesse logo em seguida à queda do “forward guidance”. O comunicado apenas repete que não há relação mecânica entre o fim do “forward guidance” e um aperto monetário.
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Alex Ribeiro — De São Paulo, 21/01/2021

