O preço das commodities determina o valor em dólares das exportações brasileiras, por consequência estabelece as condições em que o país financia seu passivo externo e seu nível de importações.

A variação na capacidade do país de financiar seu passivo externo e suas importações determina a cotação do dólar no Brasil. Por esta razão, a taxa de câmbio entre o dólar e o real possui uma forte correlação com o índice de preços das commodities publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

A taxa de câmbio real para o dólar tem alta correlação negativa com o índice de preços das commodities

O coeficiente de correlação entre duas variáveis assume valores entre 1 e -1, onde o primeiro valor corresponde à perfeita correlação positiva e o segundo à perfeita correlação negativa. O índice da taxa de câmbio real (IPCA) para o dólar americano calculado pelo Banco Central possuiu um coeficiente de correlação de aproximadamente -0,84 com o índice de preços das commodities publicado pelo FMI, para o período que começa em outubro de 2002 e termina em outubro de 2020. Em outras palavras, o real se desvalorizou quando o índice de preços das commodities caiu no mercado internacional.

O fato de a cotação do dólar em reais ter acompanhado o índice de preços das commodities nos últimos 18 anos faz com que a economia brasileira tenha características próximas à economia do apogeu do café no Brasil. A economia cafeeira foi descrita de forma brilhante por Celso Furtado em sua obra “Formação Econômica do Brasil” e seus problemas nos ajudam a compreender a economia brasileira de hoje.

Entre o final do século XIX e início do século XX o valor da moeda nacional possuía uma forte correlação com a cotação internacional do café. Naquele período, as desvalorizações cambiais nos momentos de queda do preço do café funcionavam como uma espécie de mecanismo de defesa da renda e do emprego no Brasil.

Na economia brasileira cafeeira quando o valor das exportações diminuía pela queda da cotação do café no mercado internacional a desvalorização cambial impedia maiores perdas aos exportadores em moeda nacional. A conservação dos lucros dos empresários ligados à exportação do café evitava o abandono das plantações e assegurava certa estabilidade ao nível de renda e emprego daquele sistema econômico.

No que concerne à balança de pagamentos brasileira nos períodos de queda do preço do café, a desvalorização cambial reduzia as importações, evitando maiores desequilíbrios na balança comercial. A desvalorização da moeda nacional também preservava as reservas metálicas do Brasil, impondo grandes perdas aos capitais que deixassem o país.

Entretanto, a desvalorização cambial gerava uma tendência inflacionária na economia que levava ao empobrecimento das populações urbanas. Ademais, a valorização cambial nos períodos de crescimento tornava inviável o investimento em setores intensivos em capital que não fossem ligados à exportação do café.

Nas últimas décadas no Brasil a desvalorização cambial atenuou as perdas em reais das empresas da área de commodities que decorreram da queda dos preços dos produtos do setor no mercado internacional. A proteção da receita das companhias evitou um número maior de falências na economia brasileira.

Desde 2002 a desvalorização cambial no Brasil contém os desequilíbrios da balança de pagamentos do país. A alta do dólar reduz as importações brasileiras nos momentos em que a baixa dos preços das commodities diminui o valor em dólares das exportações nacionais. Além disso, a desvalorização do real impõe um alto custo aos capitais que deixam o Brasil. Como no passado, a combinação destes dois processos tem preservado as reservas internacionais do país.

Todavia, por se tratar de um mecanismo imperfeito de defesa do lucro, a desvalorização cambial não impede a queda dos investimentos do setor de commodities brasileiro. Assim como na economia cafeeira, a valorização cambial nos anos de crescimento econômico limitou o investimento em indústrias tecnológicas, intensivas em capital, no Brasil.

O valor real das ações das empresas brasileiras é diretamente afetado pela queda do investimento na economia. Porém, o valor em dólares das ações e dos principais ativos brasileiros é afetado pela queda dos investimentos e pela desvalorização do real nos períodos de redução dos preços das commodities.

A depreciação dos ativos brasileiros em dólares aumenta o custo de captação de capital das empresas do país no exterior.

Em função da alta dos preços dos produtos importados e dos alimentos, que possuem preços internacionais mais estáveis que o do conjunto das commodities, a desvalorização do real eleva a inflação no Brasil. O crescimento da inflação aumenta o custo de vida das famílias nos momentos de maior desemprego. A resposta do Banco Central à alta da inflação é a elevação da taxa de juros básica da economia.

A elevação da taxa de juros básica da economia faz crescer o custo do financiamento ao investimento dentro do país.

Em uma economia exportadora de commodities, o aumento da produtividade, que é o fator responsável por iniciar um processo de crescimento econômico, acontece por meio da elevação dos preços em dólares das commodities nos mercados internacionais.

O crescimento do déficit público no Brasil é resultado da dificuldade do país de sustentar seu nível de investimento nas fases do ciclo econômico em que não existe o estímulo externo da valorização das commodities. O auxílio emergencial aos brasileiros deveria ser mantido até que exista segurança para o retorno ao trabalho.

O desenvolvimento econômico brasileiro requer que o país expanda seu domínio sobre setores de alta produtividade. Neste sentido, a política econômica do Brasil precisa promover o investimento em setores de alta demanda internacional que elevem as exportações brasileiras em dólares.

A continua ampliação da geração de divisas para o país abre a perspectiva de estabilização do valor do real em relação ao dólar. A diminuição da volatilidade cambial reduz o risco inflacionário e a exposição da indústria nacional à excessiva valorização do real. A estabilidade cambial diminui a possibilidade de desvalorização dos ativos nacionais, favorecendo a elevação do investimento no país.

Renan Tadeus Soares Cara, trader, economista, mestre em ciências econômicas pela Unicamp.

 

Fonte: Valor Econômico - Opinião, por Renan Tadeus Cara, 15/01/2021