Apesar dos ruídos na comunicação dos dados de eficácia da Coronavac, especialistas reforçam que o imunizante, produzido pelo Instituto Butantan em parceria com a chinesa Sinovac, é seguro e bom, principalmente porque permite ao Brasil começar, finalmente, seu programa de vacinação.
“Não sabemos tudo sobre essa vacina, mas, tudo o que nós sabemos, é bom”, resume Hélio Bacha, médico infectologista e consultor técnico da Sociedade Brasileira de Infectologia. Segundo o Butantan, a eficácia global da Coronavac no Brasil foi de 50,4%, acima do mínimo recomendado (50%) pela Organização Mundial de Saúde e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária do Brasil. O número, no entanto, ficou abaixo do observado em imunizantes da Pfizer (95%) e da Moderna (94,1%). Essas vacinas, porém, são produzidas a partir do RNA mensageiro, enquanto a Coronavac usa o vírus inativado.
“Esse resultado é bem razoável, principalmente por ter algo já na mão que possa modificar a pandemia”, diz Bacha, lembrando que, para vacinas do tipo da Coronavac, era esperado algo mais perto de 60%. “Números acima de 90% são equivalentes às melhores vacinas, de sarampo, febre amarela. As dos vírus das gripais são bem menores.”
Após a divulgação dos dados brasileiros, Malásia e Cingapura, que têm acordo com a Sinovac, disseram que vão procurar a chinesa para mais informações sobre eficácia antes de aprovar compras, informou a agência Reuters. Para o médico sanitarista Adriano Massuda, professor da FGV, é natural que países queiram detalhes. “É um produto novo, há vários no mercado competindo e cada país tem que avaliar qual se adapta melhor às suas circunstâncias.”
Sob esse aspecto, a vacina do Butantan ganha relevância para o Brasil. “O índice de proteção não é dos mais altos, mas é suficiente para garantir potencial de imunidade coletiva, se houver grande cobertura vacinal, e isso é o mais importante em uma pandemia. É uma vacina que será produzida aqui, não é das mais caras e o manuseio também é de fácil acesso”, lembra Massuda.
Esses elementos ajudam a explicar parte da diferença entre o que os especialistas dizem ser a eficácia dos imunizantes em estudos controlados e sua “eficácia real”, que ainda precisará de tempo e da aplicação na prática para ser compreendida. “A eficiência de uma vacina no estudo pode ser de 80%, mas, se a aplicação é difícil, você pode acabar tendo uma eficiência menor”, diz Bacha. Com o Butantan apontando que a Coronavac não gera efeitos colaterais graves, agora será “o teste para valer”, afirma o infectologista. “É hora de dispormos do melhor meio que nós temos. O Brasil ficou sem muitas opções, não foi disputar no mercado as vacinas mais modernas.”
“Qual é a nossa alternativa hoje? Comparada com a hipótese original de não ter nada, a Coronavac é absurdamente boa”, afirma Marcio Sommer Bittencourt, médico do Centro de Pesquisa Clínica e Epidemiológica do Hospital Universitário da Universidade de São Paulo (HU-USP). “Se você me disser que vai ter vacina da Pfizer, eu vou perguntar quando ela chega e em quantas doses. A pior hipótese é ficar esperando a vacina chegar sem ela vir.”
O Instituto Butantan explicou ainda que seu estudo, diferentemente de outros, se concentrou em profissionais de saúde em contato com pacientes com covid-19, o que tornou a incidência da doença no grupo analisado maior, e incluiu até casos muito leves da doença. Segundo o instituto, essas escolhas foram conscientes, para “estressar” ao máximo a capacidade da vacina. Para Bacha, é bom poder testar com um grupo mais exposto. “Você tem que estudar onde tem mais casos.”
Os médicos apontam, porém, que essas informações técnicas poderiam ter ficado mais claras desde o começo e que o governo gerou confusão ao divulgar, na semana passada e sem oferecer muitos detalhes, uma eficácia de 78% considerando apenas os casos leves. A primeira divulgação foi “pobre”, avalia Bittencourt. Na segunda, melhorou, diz.
“Tem o mérito de ter apostado no desenvolvimento da vacina, ter investido, mas acho que a ansiedade por reconhecimento atrapalhou”, afirma Massuda, da FGV. O principal, segundo ele, é esclarecer para a população que a vacina é boa para o Brasil. Massuda reforça que o país tem uma tradição centenária de vacinação que não pode ser colocada em risco. “As pessoas precisam ser vacinadas.”
Fonte: Valor Econômico - Brasil, por Anaïs Fernandes — De São Paulo, 14/01/2021

