Diante do avanço das expectativas de inflação nos Estados Unidos, o salto dos rendimentos dos Treasuries e dos juros reais americanos tem se mostrado relevante, além de influenciar curvas de juros ao redor do globo, como a brasileira. Somado aos riscos fiscais, o movimento dos juros americanos fez as taxas futuras de longo prazo dispararem no Brasil desde o início do ano, mas também teve impactos relevantes nas taxas das NTN-Bs e no juro real “ex-ante”, que se afastou das mínimas históricas e voltou a se aproximar de zero.
Depois de atingir, no início de dezembro, o piso histórico -1,17%, o juro real subiu para -0,25% no fim da semana passada, o maior nível em dois meses. O cálculo do juro real, feito pelo Valor Data, considera o contrato de swap de juro de 360 dias, descontada a projeção de inflação para um ano. Diversos fatores ajudam a explicar o movimento, mas, mais recentemente, tem ganhado espaço o processo de reflação, ou seja, o retorno da inflação em um período pós-recessão, especialmente nos EUA, onde o mercado precifica chances elevadas de que novos estímulos fiscais serão empregados.
Não por acaso, o rendimento da T-note de dez anos subiu de 0,93% em 4 de janeiro para 1,15% ontem, após ter alcançado 1,186% na máxima do dia, nível não visto desde março de 2020. Por aqui, a taxa do DI para janeiro de 2025 subiu 0,72 ponto percentual no período, ao encerrar o dia de ontem em 6,38%.
No mercado americano, o processo de reflação também provocou o avanço firme dos juros das TIPS, papéis atrelados à inflação, similares às NTN-Bs brasileiras, cujas taxas também têm subido. No fechamento de ontem, a taxa das TIPS de dez anos estava em menos 0,93% e precificava uma inflação de 2,08%.
“Juros reais baixos e política fiscal expansionista são favoráveis a ativos de risco e negativos para o dólar. No entanto, o quadro mudou um pouco recentemente e os juros reais subiram. Além disso, o mercado começou a precificar uma antecipação da primeira elevação de juros pelo Federal Reserve do início de 2024 para o terceiro trimestre de 2023”, afirma o analista-chefe do Danske Bank, Arne Lohmann Rasmussen.
No Brasil, não foi somente o juro real ex-ante que se mostrou alinhado ao movimento dos EUA, mas também as NTN-Bs. A taxa do papel que vence em maio de 2025 subiu de 1,77% no início do ano para 2,01%, ao mesmo tempo em que a taxa da NTN-B para agosto de 2030 passou de 2,82% para 3,09%. Vale apontar, ainda, que o Tesouro Nacional realizou ontem leilão de 2,05 bilhões de NTN-Bs e vendeu 98% dos papéis, com demanda significativa pelos títulos com vencimento em agosto de 2024 e em agosto de 2028.
O economista-chefe da Exploritas, Andrei Spacov, nota que o processo de reflação, com alta dos juros longos nos EUA, pode ter impacto relevante na taxa de câmbio. “É o mecanismo que nos afeta diretamente. Vínhamos tendo um alívio cambial no fim do ano passado, mas agora o dólar já voltou a níveis superiores aos vistos durante a reunião de dezembro do Copom”, afirma o economista.
Outro ponto levantado por Spacov está ligado à chance de estímulo à atividade mais forte do que o esperado e que uma saída mais rápida dos EUA da crise daria apoio à retomada da economia global. “O ponto negativo é que isso anteciparia a remoção de estímulos e um aumento de juros poderia ser visto mais cedo, em 2023, e não mais em 2024”, diz o economista, que também nota menor risco de desaquecimento da atividade econômica.
Os juros futuros, inclusive, têm reagido a esse fator, no momento em que os agentes têm exigido prêmio de risco adicional nos contratos de prazo intermediário, diante da possibilidade de diminuição do diferencial de taxas de juros, avalia um gestor de renda fixa que prefere não se identificar. “Já vemos alguns dirigentes regionais do Federal Reserve conversando a respeito ou se posicionando sobre o processo de retirada de estímulos. Se as taxas subirem lá fora, deveríamos tentar respeitar o diferencial, tendo em vista nosso risco fiscal”, afirma. Ele, contudo, minimiza os efeitos da reflação nos EUA ao menos no curto prazo.
Na visão de Cássio Andrade Xavier, gestor de renda fixa da Sicredi Asset, o processo de reflação nos EUA tende a ser negativo para as curvas de juros de diversos países no curto prazo, “mas não vemos essa alta do juro de dez anos americano trazendo mudança significativa para a análise do Copom”.
A desconfiança quanto às contas públicas, porém, segue em vigor, de acordo com Xavier, e ajudou a deixar a curva de juros com mais prêmio de risco neste início de ano. Para ele, a discussão sobre a extensão do auxílio emergencial contribuiu com uma maior inclinação da curva de juros futuros e se tornou um fator adicional de estresse para os mercados, no momento em que os casos de covid-19 no Brasil têm aumentado. “A eleição na Câmara não é o grande risco, mas sim a disposição de governo e da equipe econômica de fazer a pauta andar, já que nem Arthur Lira (PP-AL) nem Baleia Rossi (MDB-SP) parecem ter tanta força para conduzir uma agenda como Rodrigo Maia (DEM-RJ) teve.”
Fonte: Valor Econômico - Finanças, por Victor Rezende e Felipe Saturnino — De São Paulo, 13/01/2021

