O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) elevou a intensidade de corte da taxa básica de juros, para 0,75 ponto percentual, respondendo aos sinais de queda mais disseminada da inflação e de uma recuperação ainda mais demorada e gradual do que a antecipada. 

O movimento, que levou a taxa Selic para 13% ao ano, foi maior do que o previsto pela maior parte dos analistas econômicos, que projetavam 0,5 ponto de baixa, mas não chegou a ser uma grande surpresa. Alguns deles apostavam numa maior ousadia do comitê e praticamente todos consideravam esse cenário possível, mesmo que menos provável. 

Com a decisão, novas reduções de 0,75 ponto percentual tendem a virar o piso das expectativas dos agentes de mercado para as próximas reuniões, e os juros futuros devem ter um ajuste de baixa hoje na abertura do pregão da BM&F, em um movimento de alinhamento a um BC menos conservador. O mercado também passará a discutir o ciclo total de corte dos juros. 

Os analistas projetam uma taxa básica de 10,25% no fim do ano, mas vinham aumentando as avaliações de que ela poderá chegar a um dígito. Pesquisa feita pelo Valor com 38 economistas na semana passada mostrou que 13 deles já contavam com a Selic em um dígito no fim de 2017.

O Copom chegou a avaliar na reunião de ontem a hipótese de cortar os juros em apenas 0,5 ponto. "Diante do ambiente com expectativas de inflação ancoradas, o Comitê entende que o atual cenário, com um processo de desinflação mais disseminado e atividade econômica aquém do esperado, já torna apropriada a antecipação do ciclo de distensão da política monetária, permitindo o estabelecimento do novo ritmo de flexibilização", justificou o Copom, em comunicado divulgado logo após a reunião.

Em fins de 2016, o Copom sofreu críticas do governo e de economistas por ter cortado os juros em movimentos de apenas 0,25 ponto percentual, em meio a dados de debilidade da economia que poderiam contribuir para cumprir as metas de inflação.

O presidente do BC, Ilan Goldfajn, argumentou que a política monetária mais austera foi um investimento para ancorar as expectativas de inflação, o que por sua vez permitiria maior flexibilidade para cuidar mais dos custos sobre a atividade e do cumprimento da meta de inflação.
O colegiado indicou, desde então, que iria acompanhar a evolução da atividade econômica para decidir se cortaria os juros com mais força. 

Dados recentes sobre a produção industrial e vendas do comércio colocaram em xeque a tese do colegiado de que a economia poderia ter se estabilizado no quarto trimestre de 2016, depois de uma recessão que em dois anos provocou uma contração de quase 7% no Produto Interno Bruto (PIB) do país. "O conjunto dos indicadores sugere atividade econômica aquém do esperado", disse o Copom. "A evidência disponível sinaliza que a retomada da atividade econômica deve ser ainda mais demorada e gradual que a antecipada previamente."

Os últimos dados da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) vieram mais favoráveis que o esperado. "A inflação recente continuou mais favorável que o esperado", afirma o comunicado. "Há evidências de que o processo de desinflação mais difundida tenha atingido também componentes mais sensíveis à política monetária e ao ciclo econômico."

Na nota, o Copom também registra o IPCA de 6,3% em 2016, abaixo do teto da meta, que foi divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). "A inflação acumulada no ano passado alcançou 6,3%, bem abaixo do esperado há poucos meses e dentro do intervalo de tolerância da meta para a inflação estabelecido para 2016."

A economia mais fraca e o comportamento benigno mais disseminado dos preços ajudaram a baixar as projeções de inflação do Copom para 2017 e para 2018, anos que são alvo da política de juros ­ o colegiado destaca que esse último ano terá "peso crescente" nas suas decisões.

Uma das projeções indicava que, se os juros ficassem estáveis nos 13,75% ao ano vigentes na abertura da reunião de ontem, o IPCA fecharia em 4% em 2017 e 3,4% em 2018, bem abaixo da meta de inflação, fixada em 4,5%. Um outro cenário de projeção, que leva em conta a trajetória de cortes de juros esperada pelo mercado, que prevê uma taxa básica em 10,25% ao ano a partir de outubro, o IPCA ficaria em 4,4% em 2017 e em 4,5% em 2018.

A discussão agora entre os analistas econômicos é sobre o tamanho dos próximos cortes na taxa básica e em quanto os juros poderão estar ao fim do ciclo atual de afrouxamento monetário. O Copom sinalizou que "a extensão do ciclo e possíveis revisões no ritmo de flexibilização continuarão dependendo das projeções e expectativas de inflação e da evolução dos fatores de risco", que incluem a implementação do ajuste fiscal, o efeito da atividade econômica sobre a inflação e as incertezas no cenário externo.

Fonte: Valor - Finanças, por Eduardo Campos e Alex Ribeiro, 12/01/2017