O real andou na contramão da Bolsa na primeira semana do ano, quando o mercado acionário bateu sucessivos recordes. O dólar encerrou o período em forte alta acumulada de 4,37%, cotado a R$ 5,4160. Foi a maior valorização semanal da moeda americana desde 15 de junho. Nesta sexta-feira (8), subiu 0,31%.

Em comparação às primeiras semanas de anos anteriores, foi a maior desvalorização do real desde 1994, de acordo com a Economática, se levada em conta a Ptax (taxa de câmbio calculada pelo BC baseada na média do mercado).

Janeiros tendem a ser meses positivos para a divisa brasileira, com entrada de capital ao país e de queda do dólar.

O movimento neste começo de ano, porém, reflete o aumento do risco fiscal no Brasil, bem como a força internacional do dólar ante moedas emergentes com a vitória democrata nas eleições dos EUA e o aumento de casos Covid-19 e de restrições para conter seu avanço.

O real teve a segunda maior desvalorização entre emergentes, atrás do rand sul-africano.

Nesta semana, o deputado federal e presidente do MDB, Baleia Rossi (SP), lançou oficialmente sua candidatura ao comando da Câmara, defendendo a prorrogação do auxílio emergencial em meio à pandemia do coronavírus.

“A indefinição dos novos presidentes do Congresso e Senado e de como o governo conseguiria montar uma base para aprovar as medidas que já estão um bom tempo paradas deixa os investidores em compasso de espera”, afirma Fabrizio Velloni, economista-chefe da Frente Corretora.

Velloni se diz preocupado com a combinação alta do dólar e valorização do petróleo na inflação brasileira.

Também nesta semana, a Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara publicou nota técnica que visa o aumento do gasto do governo com despesas obrigatórias para além do teto de gastos.

Uma perspectiva de aumento de gastos por parte do governo amplia a percepção quanto ao risco fiscal brasileiro. Quanto mais fraca e endividada uma economia, menos valor tende a ter sua moeda.

O aumento do risco fiscal se reflete na alta dos juros futuros —taxas esperadas pelo mercado nos próximos meses e anos. São a principal referência para os juros de empréstimos que são liberados atualmente, mas cuja quitação ocorrerá no futuro. Na semana, o juro para julho de 2022 subiu de 3,60% para 4,02%.

A Selic a 2% ao ano, mínima histórica, e os juros reais (descontando a inflação) em território negativo, também contribuem para a desvalorização do real, tornando mais barato posições de hedge em dólar, que têm o intuito de proteger aplicações da variação cambial.

A Bolsa brasileira, por outro lado, subiu 5% na semana, em meio a recordes. Nesta sexta-feira, renovou sua máxima, aos 125.076,63 pontos no fechamento, alta de 2,19% no pregão. Na máxima do dia, foi a 125.323,53 pontos, recorde intraday.

Geralmente, quando a Bolsa sobe, o dólar cai, em um sinal de redução da percepção de risco de investidores. Enquanto o investimento em ações é tido como mais arriscado, a compra de dólares é um porto seguro.

O mercado acionário local, porém, avança com a entrada de investidores pessoa física e estrangeiros, em um cenário de grande liquidez global. Em dólares, a Bolsa brasileira ainda estaria barata para investidores estrangeiros.

Em Wall Street, os principais índices acionários também renovaram recordes nesta sexta. O Dow Jones subiu 0,18%, o S&P 500 teve alta de 0,55%, e a Nasdaq, de 1,03%.

Com maioria democrata no Senado e na Câmara dos EUA, o mercado espera novos pacotes econômicos de estímulo no país sob o governo de Joe Biden —na semana passada, foi aprovado um pacote de quase US$ 900 bilhões.

A maior economia do mundo tem desacelerado sua recuperação. Nesta sexta, o relatório de emprego do governo americano mostrou que a economia cortou vagas pela primeira vez em oito meses em dezembro, com 140 mil empregos a menos.


Fonte: Folha de São Paulo - Mercado, por Júlia Moura Com Reuters - de São Paulo, 09/01/2021