A penúria vivida pelas empresas de construção pesada no Brasil está levando as companhias a procurarem duas saídas: obras no exterior, sobretudo em países da América Latina, como Colômbia e Peru, e nichos de mercado, como obras no setor de energia ­ caso de linhas de transmissão ­, ferrovias e rodovias.

A combinação da operação Lava­Jato, que levou a Petrobras a barrar a contratação das envolvidas no escândalo de corrupção, com a crise fiscal, que fechou a torneira das contratações de obras públicas, mais a crise econômica, que reduziu os investimentos também no setor privado, ajudou a fazer de 2016 o ano com o menor nível de gastos em infraestrutura da história, o que corroeu a carteira de contratos das empreiteiras. Em alguns casos, o tombo no faturamento das empresas foi da ordem de 40% em comparação com 2015.

Após um ano bastante difícil em 2016, a expectativa para 2017 ainda não é de recuperação. Considerados pelo governo como tábua de salvação da economia, os investimentos nas concessões de infraestrutura lançadas no fim de 2016 ainda vão levar um tempo para se traduzir em obras. 

Segundo as construtoras ouvidas pelo Valor, os leilões previstos para 2017, como o de portos e aeroportos, não devem gerar canteiro de obra antes de 2018. "O que aconteceu no ano passado não foi suficiente [em termos de projetos]", diz Josedir Barreto, diretor financeiro da OAS, para quem, hoje, não é possível depender do mercado nacional. 

Para se ter uma ideia, contratos no Brasil representam metade da carteira da empreiteira, mas a expectativa de Barreto é de que projetos no exterior com probabilidade de serem assinados nos próximos três meses puxem de maneira significativa a participação do mercado externo, superando o doméstico.

Embora haja a perspectiva dos leilões neste ano, os quais a empresa deve estudar, a avaliação do executivo é de que os projetos realmente maduros, com capacidade de injetar caixa na companhia, estão na área internacional. "A OAS não pode se dar ao luxo de focar apenas em um mercado".

A situação não é diferente para outras grandes empreiteiras, como Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, cujas carteiras de obras vêm emagrecendo ano a ano no país.
Diante do marasmo, as associações de classe do setor estão lançando iniciativas para tentar reduzir os danos que o segmento ainda terá este ano. 

"Que 2017 será difícil não há dúvida. O que estamos tentando evitar é que seja pior que 2016", diz Carlos Eduardo Lima, presidente da Comissão de Obras Públicas, Privatizações e Concessões (COP) da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

Já a Odebrecht deve enfrentar dificuldades inclusive para contratos no exterior. Após ter assinado acordo de leniência com autoridades do Brasil, EUA e Suíça, países da América Latina, como Panamá, Peru e Equador, tomaram medidas contra a empresa, de cancelamento de contratos a 
exclusão da companhia de novas obras. Ontem, no entanto, a procuradoria do Peru chegou a um acordo com o grupo. 

Outro aspecto que pode impactar o mercado brasileiro de construção pesada é a preocupação que o governo tem manifestado com a contratação de partes relacionadas ­ empresas que integram um mesmo grupo econômico. Isso porque uma boa parte das empreiteiras do país compõe grupos que contam com um braço de investimentos em concessões.

A Odebrecht Engenharia e Construção, por exemplo, tem no seu grupo a Odebrecht Transport. Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa são acionistas da CCR, que já manifestou interesse no leilão de aeroportos. Mesmo alguns dos grupos estrangeiros interessados em participar do leilão contam com braços de construção pesada que, eventualmente, poderiam ser contratados para a obra ­ como o grupo Vinci, com a Vinci Airports e a Vinci Construction.

Alguns empresários avaliam que qualquer restrição em relação a esse tipo de contratação pode reduzir interesse no certame. Há, porém, quem veja possibilidade de se sobressair nesse novo contexto. A transferência das ações da OAS na Invepar para os credores é vista como um marco que pode abrir portas para a contratação da empreiteira por  interessados nos leilões que não queiram contratar controladas ou empresas irmãs de possíveis concorrentes.

Fonte: Valor - Empresas, por Victória Mantoan e Fernanda Pires, 06/01/2017